hoje fazem dois anos que você partiu, mas parece uma eternidade. ao mesmo tempo em que lembro dos seus últimos dias como se fosse ontem e dos 13 anos que passou conosco como se fosse hoje.
li uma vez - e não sei se é verdade científica ou teoria esotérica - que, mesmo que a gente não lembre, nosso corpo lembra de datas dolorosas. sabe aqueles dias em que estamos tristes e não sabemos muito bem porque? então, talvez seja porque passamos por algo difícil neste mesmo dia, em outro ano. apesar de não lembrarmos, nosso corpo se lembra.
bom, eu suponho ser pior ainda quando lembramos.
e eu me lembro bem dos seus últimos dias. foi pesado, né, meu amor? eu via nos seus olhinhos o quanto estava sofrendo, mesmo com os remédios, e queria que a dor parasse, mas, ao mesmo tempo, não queria deixar a gente. porque você sempre foi nossa protetora. o cão feroz mais meigo que já conheci. você não sabia falar, mas disse tanta coisa ao longo desses 13 anos. me fez tão feliz. foi difícil te ver daquele jeito.
se lembra daquele momento em que estávamos sozinhas na cozinha, na véspera de natal? você já estava tão debilitada, andar era um sacrifício, mas continuou nos seguindo pela casa. você me observava lavar a louça e eu chorava baixinho pra vovó, que tomava banho, não ouvir - estava tentando ser forte na frente dela. você me olhou confusa. estava com dor, mas mais preocupada com o meu sofrimento. eu me agachei do seu lado, te fiz carinho e disse “pode partir, meu amor. eu sei que você está cansada. vai ser doído, mas vamos ficar bem. não precisa se preocupar com a gente”. acho que você entendeu, né?
na noite seguinte, de madrugada, você deitou do lado da minha cama e eu te fiz carinho até cairmos no sono de novo. hoje eu sei que, naquele momento, estava se despedindo de mim.
ah, quanta falta eu sinto de você! os meus dias nunca mais foram os mesmos. o natal nunca mais foi o mesmo. te ver partindo aos pouquinhos durante ele acabou com essa data pra mim. mas não se preocupe, eu já não era mais fã dela há um tempo.
acho que por isso decidi passar o natal deste ano sozinha, eu sabia que estaria melancólica, foi assim no ano passado. e odeio ter que esconder minha tristeza porque nem todo mundo entende sentir tudo isso por causa de uma animal. mas você não era só um animal, né? você era a minha Melzinha, meu amorzinho. esteve do meu lado em algumas das piores e melhores fases da minha vida de um jeito que nenhum ser humano conseguiu. e eu sou tão grata.
já me acostumei com o “nunca mais” - até tatuei o corvo de poe no braço -, mas a melancolia da sua ausência vai viver em mim pra sempre. e, assim, do meu jeito “dramático”, te mantenho viva aqui dentro.
preciso te contar. eu sinto que sua morte foi também a morte de uma parte da minha vida. a ruptura da última coisa que unia eu e a sua vovó - quando eu perguntava “cadê a vovó?”, você corria procurando por ela, lembra? você entendia aquela palavra, né? com certeza não o significado, mas sabia a quem se referia e isso era uma das muitas coisas incríveis sobre você. ah, você era tão incrível. você sabia tanto de amor.
você era nossa. minha e da vovó. cuidaríamos de você juntas até o fim. e fizemos isso - sinto que mais ela do que eu, pois estava longe e me culpo até hoje, mas cuidamos. te demos a vida mais feliz que pudemos e o fim mais digno e indolor. e nada disso chega perto do que você nos deu nesses anos todos.
preciso te contar que, depois que você se foi, eu sinto que as coisas nunca mais foram as mesmas entre eu e a vovó, mas não quero que se preocupe, não é culpa sua. você sempre foi a mais inocente de nós três. saiba que essa ruptura foi necessária em vários sentidos. mesmo assim, não deixa de ser triste. coisas boas e ruins às vezes coexistem: eu escrevo este texto em lágrimas, e são as mesmas lágrimas que você me arrancava quando quase me matava de rir com as suas gracinhas.
acho que esse é o preço que se paga por amar muito um ser vivo que partiu antes de você: um buraquinho eterno no coração. e, sinceramente, é um preço pequeno. eu viveria esses 13 anos contigo tudo de novo, mesmo sabendo que a saudade vai durar muito mais do que isso.
me desculpe por escrever uma carta tão triste, mas acho que seu coração me enxerga pra além disso, sempre enxergou. pra você eu sempre fui apenas a lele e isso bastava. alegre, melancólica, raivosa, mesquinha, fraca, inteligente… nenhum desses adjetivos importava pra você. eu era só a lele, a sua lele, e você me amou por inteiro. só desejo ter conseguido retribuir pelo menos um pouco.
espero que você esteja bem.
te amo pra sempre, Melzinha!
com amor,
mamãe.

sinto muito <3
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